Combustível sonoro para mentes inquietas

Num momento de censura e retaliações ao mundo artístico, a resistência em seguir adiante é um ponto de partida para reforçar o papel da arte e dos festivais na sociedade contemporânea. Promover o pensamento critico através do fomento a uma criação artística conectada com seu tempo se torna especialmente relevante no momento atual, quando se faz necessário bradarmos a importância do diferente, do estranho, e ainda que a criatividade e a experimentação são pontos chave do mundo contemporâneo.

A sétima edição do Festival emana esses princípios na provocação realizada a Laura Bowler, compositora, artista vocal e diretora artística inglesa que participa de residência artística colaborando com músicos, compositores e artistas visuais brasileiros.

Laura, quando da première de sua obra FFF no Huddersfield Contemporary Music Festival foi descrita como “uma tripla ameaça: compositora-performer-provocadora”. Como uma base sólida e uma desenvoltura criativa contagiante ela trabalhou junto ao vídeo artista Raimo Benedetti e ao compositor Gustavo Bonin para a criação de uma obra híbrida inquieta e inquisidora que denuncia a situação social extrema em que se afunda o Brasil. Colaboram também um ensemble musical que mistura o grupo Ateliê Contemporâneo com novos músicos da cena clássica contemporânea de São Paulo e a participação especial da flautista e professora Cássia Carrascoza.

 

Completa o projeto de intercâmbio entre Londres e São Paulo a vinda do músico, pesquisador e designer de instrumentos inglês Tom Richards, artista associado da Nonclassical, selo e produtora do compositor Gabriel Prokofiev, parceiro na residência. Richards construiu sua prática artística usando eletrônica, som e cinema e atualmente desenvolve pesquisa sobre o trabalho da compositora inglesa Daphne Oram - pioneira da música eletrônica. Ele traz ao Brasil o Mini Oramics, instrumento único desenvolvido por ele com base no famoso Oramics - um sintetizador que produz sons eletrônicos a partir da leitura de desenhos em movimento, criado por Oram na década de 60.

 

Reconhecido como um dos grupos mais inovadores da música nova na Europa, o SCENATET é capitaneado pela dinamarquesa Anna Berit Asp Christensen, artista inquieta que carrega uma marca particular na sua curadoria e criação artística. Autointitulado Ensemble for Art&Music o grupo transita por diferentes gêneros artísticos passando pela música, teatro, artes visuais entre outras. Além de destacadas salas de concerto da Europa e EUA Scenatet já se apresentou em ambientes inesperados como parques, bibliotecas, quintais e casas particulares estabelecendo um forte vínculo com seu público. O grupo apresenta dois concertos diferentes: New Sonic Scenarys (novos cenários sônicos) - com novos criadores da cena dinamarquesa e europeia que exploram novos formatos, e Me Quitte - obra de fôlego do compositor dinamarquês Nils Rønsholdt que ressignifica a famosa canção de Jaques Brel Ne Me Quitte Pas (não me deixe) num movimento retrógrado e ao avesso, de trás pra frente, implorando à sua amada que o deixe; “nos remete ao inferno onde, na refração de seu espelho mágico, o belo nos parece horrível”.

 

Da cena de música improvisada temos o trabalho do duo canadense Not The Music, numa formação criativa com timbres e texturas potentes. Representante brasileiro da mesma cepa é o sergipano-baiano Gilberto Monte, músico de formação e produtor musical. Monte traz seu trabalho autoral solo Fóssil, Madeira e Minério, com guitarra preparada, lowfi, loops, slicers dinâmicos, síntese granular e objetos sonoros mesclados em Pure Data.

 

O trabalho da dupla MirellaBrandiXMuepEtmo se apoia nas artes performativas, na música, no cinema expandido e nas instalações imersivas para a criação de AXIOMA.8, novo projeto de música visual e cinema expandido.

 

E tem ainda a Festa Estranha com o “entre o dub e o noise” do duo Mariana Herzer e Ricardo Carioba, o Duo Prismas relendo Dinergia e os DJsets de Guilherme Werneck e Tom Richards.

A edição 2019 traz uma parceria fundamental com o SESC São Paulo. Para a vinda do Scenatet o Festival tem o apoio do Instituto Cultural da Dinamarca, Danish Arts Foundation, KODA, SNYK e Knud Højgaard Fond. Para o projeto de residência dos dois artistas britânicos o Festival tem o patrocínio do British Council e Oi Futuro dentro do programa Pontes. 

 

Thiago Cury